terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Tia Márcia prevendo o futuro...

Uma vez, eram os anos 90 ainda e eu devia ter por volta dos sete ou oito anos, estava na casa da minha tia Márcia, que ficava o dia inteiro na cozinha ouvindo a radio Glo -bo-bo-bo!!!! (esse era o eco da vinheta...quase o seu Creysson) , lavando a louça do almoço, e ouvindo as fofocas do leão Lobo por ai.
Bem ,eram os anos 90 e enquanto eu não estava assistindo o Chaves, eu tava brincando de Banco Imobiliário com a minha prima e minha Tia Márcia ouvindo a rádio Globo.
Eu com minha calça bailarina e minha prima com shortinho do tchan, jogando Banco Imobiliário, ela devia ter por volta dos seis anos também, mas me roubava no jogo que era uma beleza. 
Enfim, estavamos lá naquela tarde quando em algum momento da fofoca da tarde o Leão Lobo contou pra tia Márcia pelo rádio que o César Filho e a Angelica tinham terminado. Eu não via nada demais naquilo, por que a Angelica tinha um programa muito legal no SBT e a vida pessoal dela pouco me importava, eu fazia alguma ideia de que ela namorava o cara que dava os resultados do papa-tudo, mas até ai nada me dizia. Mas tia Márcia riu muito eu bem, me lembro, quando ouviu a tal noticia e soltou uma perola da qual jamais me esqueceria."Quem dorme com criança acorda mijado..." . Eu nem entendi nada. Mas também, em 1996 quem poderia prever....

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Boias são metáforas...

(tem gente ainda me esperando pra contar, as novidades que eu já canso de saber...)

Gosto de pensar
e isso me faz até um bem
que sou uma pessoa forte
alguém que caminha além


por que depois de pensar na vida
depois dessa caminhada
descobri que houve muita coisa 
descobri que não houve nada


Gosto de pensar
e isso até me dá alegria
que eu com dignidade
aprendi a gostar da minha própria companhia


por que depois de sofrer sozinha
o normal a qualquer vivente
encontrei dentro de mim 
uma pessoa diferente


diferente dessa gente
que depois de um naufrágio
não resiste a maré
e nada desesperada
se agarrando a primeira boia que houver


pois que nadei sozinha
enfrentei  mar revolto
e o céu tempestuoso
ás vezes muito quietinha


Cheguei então a praia e não acreditei, 
quando olhando de volta pro mar vislumbrei
posso nadar novamente em outros mares 
se um dia quiser
por que depois da tempestade
o que há de ser uma maré?


Quem ancorado na boia se firma
ancorado na boia se finda.
Não aprende a nadar jamais
Passa a vida no vislumbre do cais
Querendo muito chegar
Mas longe de qualquer lugar.




àqueles que sofrem a conta gotas
para evitar a dor maior
jamais saberão
que quando a batalha termina
quando a luta se finda
a terra firme que o espera
é sem duvida
a maior vitoria da guerra...

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

A Questão Mourisca -parte 1



            A viagem era um tédio, passando os dias trancada esperando a hora que Marido chegaria para me dar alguma atenção, as outras mulheres também não se enturmavam muito, e eu sabia de cor o numero de tabuas do teto da cabine.
          Toda madrugada o Marido chegava cheirando a cigarro misturado com perfume, mas não bebia, isso ele não fazia hoje vejo, era mesmo um fracote. Não bebia uma gota de álcool sequer, jogava por diversão durante hora e meia( não era dado a noitadas longas) no cassino improvisado e depois voltava para roncar feito um irlandês do meu lado a noite toda, enquanto eu chegava  chorar de chateação.
             Claro que a minha idéia não foi das mais originais, mas resolveu o problema da viagem como nunca, e hoje tenho até um pouco de nostalgia. A principio foi mesmo curiosidade, eu arrumei uma calça e uma camisa com um dos artistas da classe econômica, haviam alguns circenses por ali, e acabei descendo um pouco as escadas do navio, as roupas me foram muito úteis até por que do auge dos meus dezessete anos (já três de casamento), eu passaria facilmente por um púbere rapaz imberbe. E naquela noite mesmo, logo depois de Marido pegar no sono quem se levantou fui eu. 
           A nuvem de fumaça tomava conta do ambiente de forma espessa, e na mesa ao lado eu pude ver que algumas das putinhas de sempre rondavam Vinicius. Seria engraçado tirar algum dinheiro dele no pôquer, o tédio tinha dessas, também te ensina a arte da observação. Me fingi de estrangeiro, não dominava o idioma,  forjei uma voz falsa e me pedi pra sentar. Fazia as apostas em silencio e depois da primeira vez que ganhei uma das putinhas veio sentar-se ao meu lado.
           O maldito sorria satisfeito por encontrar adversário a altura no jogo.A fumaça ia, eu tomei um gole pequeno de pinga, e continuei jogando. Noites assim se seguiram por vários dias. Ainda tínhamos alguns dias até o destino final.
            Aquela noite em que beijei o Vinicius foi hilária, não por que ele achou primeiramente que havia sido beijado por um homem, mas por que toda a movimentação que se deu em seguida me fez lembrar alguma comedia pastelão.
            Depois de jogar, a essa altura éramos parceiros, ele já ia saindo quando e  fui em seu encalço enquanto ele ria sozinho apagando o cigarro “Você é bom rapazinho.Fala pouco e joga bastante.Isso é importante.” Eu afirmei com a cabeça eu fui saindo, quando entramos pelos corredores em penumbra das cabines eu fiz menção de dizer algo ele se surpreendeu e eu o beijei.Depois soltei os cabelos, mas ele continuava com os olhos saltando das órbitas de tanto susto então mostrei os peitos, que era pro caso dele achar que eu era homem mesmo e querer me bater, mas ele ainda tava surpreso, decerto achou que eu era alguma aberração sei lá, depois ele riu “eu jamais desconfiaria” . E saindo dando risada. No outro dia ele foi jogar de novo eu também fui, ele não disse palavra sobre o assunto e na noite seguinte jogamos menos para que pudéssemos nos divertir mais na cabine dele.
            Foram varias noites dessas e eu acabei chegando em terra firme grávida do meu primogênito. E foi aí que se deu a questão.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Poema do Homem que Não Existe

O que homem que quiser
ganhar minha atenção
Terá de ser o primeiro
a aprender a dizer não.

Não fico muito contente
com aquele cara presente
sempre com a boca sorridente
a dizer sim condescendente.

Na verdade o que vou dizer
É que estou cansada
desses homens que me deixam correr.

Ae eu corro, eu fujo
E pra voltar não faço esforço
Se você com tudo concorda
Não é digno do meu reforço.

Por que ando preguiçosa
Desses vale paraibanos parados
A orbitar pelas baladas
Incapazes de formar frase descente
Se fingindo de inteligente.

Concluindo o que penso
Não gosto de homem que pede beijo
Quem pede se subjuga
Quem pede mostra ter medo

Se risco do tapa bem dado
É maior que a expectativa
De um grande beijo roubado
É melhor que volte pra casa
Dormir com a mamãe do lado!
=)

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Verão no Aquário * ou O Buda de Camiseta do Fiuk

-Então não sei mesmo o que acontece com as pessoas, mas acho que tenho uma certeza na vida...
- A morte?
-Não. A de que meu nome é mais falado naquele lugar do que gente pedindo pão francês na padaria.
-hahaha, será?
-Certeza. Até por que se eu bem me lembro, a diversão é olhar para fora e contar as modas novas. Como se tudo não passasse de um grande aquário, gigante,onde as pessoas estão presas olhando para fora esperando sua chance de sair.E esse negocio do aquário te pega tão de jeito que você demora a se dar conta que saiu. E quando alguém consegue sair, há o ressentimento de quem ainda não conseguiu escalar as grandes paredes de vidro. Você sabe..
-Mas o que isso tem a ver com o que tem falado?
-Você sabe que cobras também moram em aquários, não?
- Sim, me lembro de uma vez no Butantã, do medo ao caminhar pelos corredores , mal me movia, com medo de derrubar um daquele aquários, um daqueles vidros... não sei, foi uma sensação horrível...
-Você sabe que por muito tempo caminhei assim e não vou negar, com os braços encolhidos e os movimentos tolhidos, tamanho medo de despertar as cobras.
- Ah mas não me venha dar uma de ratinho desprotegido , até onde eu sei, o veneno, bem, esse não te falta.
-Sim, não falta veneno e não falta vergonha na cara também, você sabe,  para se destilar veneno é melhor que tenha bons antídotos guardados no bolso, mas eu ultimamente acabei gastando os meus por ai, então fiquei sem nenhum. Dai to nessa ressaca de veneno, que não sei se rio ou choro mediante as coisas que ando vendo.
-Nem ri nem chora, sei lá. Ignora.
-Ignoro. É uma boa ideia, você é sábio como um Budazinho, vou esfregar essa sua barriga e isso me trará muita sorte.Se não sorte, um pouquinho de diversão! Acho que eu devia trabalhar mais um pouco.
-Trabalhar? Mais? Uma que você não precisa tanto assim de dinheiro e mal tem tido tempo de decorar suas falas direito.
-Se tem uma coisa que adoro é ficar irritada com as questões do meu trabalho por que são superficiais de tal forma que me permitem não pensar mais em muita coisa e ao chegar em casa estou tão exausta que desabo na cama em sono tão negro e profundo, uma cegueira doce temporária, que me apaga a memoria e leva tudo embora.
-E o tupperware da sua mãe? Queimou?
-Queimou nada, deu uma derretidinha, mas na verdade nem tinha muito ali pra se queimar. Meia duzia de fotos e umas cartinhas tão falsas e distantes que me soaram como aqueles cartões que você compra nas lojas de conveniência do posto de gasolina quando esquece o aniversário de alguém  e precisa de um presente de emergência para não ficar feio. Acho que foi bem por ai, nada como uma noite dessas para trazer a tona essas definições, falso e distante como cartões de lojinhas de conveniência!hahaha tô ficando impagável!O que mais achei engraçado depois foi que mesmo mediante todo o espetáculo dramático no quintal ela só pôs a cara na janela e gritou"vai queimar minha vasilha!" E nem queimou nada, derreteu só um pouquinho.
-Hahaha. Mas, e  agora?
-Uai, vou comprar outra vasilha para ela assim que melhorar da ressaca de amanhã.
-Isso sim. É caro uma vasilha?
- Nada no 1,99 você compra várias por uma bagatela.
-Baga o que?
-Tela. Bagatela. Coisa barata. Nem me olha com essa cara por que essa gíria nem é da minha adolescência também. minha mãe que fala isso. Bagatela....hahaha engraçado!
- E depois disso tudo?
-Ainda se falará muito. Na verdade se falará enquanto eu der motivos para isso.E provavelmente eu darei por que na verdade acredito que deva ter se tornado algo de muito divertido me maldizer pelos cantos, tem gente que a gente adora odiar, não?
-Isso é bem tipico mesmo.Vejo isso na escola o tempo todo.
-Na escola, meu deus do céu,não diga essas coisas por que me sinto uma pessoa ruim. Isso sim me faz sentir uma pessoa ruim!
- Para com isso, que besteira. Eu acho que a gente devia ir pra outro canto.
-Eu achava também por que esse assunto já rendeu.
- Na verdade acho que rendeu mais que devia, o mundo esta cheio de coisas melhores a se fazer, vamos?
- Você é um bom menino! Vamos, antes que roubem meu carro e fiquemos a pé pra sempre.
-hahaha pra sempre por que? Se roubarem seu carro você nunca mais poderá andar em outro?
-Se roubarem meu carro fico sem teto! Se minha mãe já fez escândalo pelo tupperware imagine pelo carro?
-Faz sentido, faz sentido....
-Ow tia, vê a conta ai pra gente!










* Nome de um romance da afamada escritora Lygia Fagundes Telles.

domingo, 18 de setembro de 2011

Aquilo ou Mais Uma História Sobre Casamentos de Fachada

Acordou com muita dor de cabeça. Na penumbra reconheceu o quarto de hóspedes da casa de Carmem. Foi se levantando. Teve medo de olhar para o lado. Pelas persianas o sol parecia forte, era feriado então, provavelmente Vicente voltasse para o Rio apenas no final da tarde, calado e ensimesmado a semana toda, já havia alguns anos que esse ritual se repetia no Natal.
E ela sem coragem para voltar para casa, a família nem sempre podia vir e nos últimos tempos ela nem queria mesmo que viessem por que vinham cheios de coisas para contar que ela não queria ouvir e de lembranças que não queria ter, por isso nas festas ela ficava sozinha na casa enorme, ouvindo o eco dos passos dos empregados ao longe, na enorme cama vazia, esperando as festas malucas de Carmem acontecerem para que pudesse ouvir barulho, as vozes, os risos incontidos e os abraços perdidos do rapaz que ressonava  novamente ao seu lado, inocente como ela mesma um dia fora, dormindo o sono dos justos, pensando estar fazendo um bem tremendo a mulher do patrão, que aprendeu a fumar de tanto tédio, que tocava piano o dia todo e que quase nunca falava com ninguém.
A Carmem já dizia “Para tudo é preciso primeiro dar festas, por que é necessário que exista alegria nem que seja por algumas horas por ai, que é para não se enlouquecer de repente...” Enlouquecer de repente, se não enlouquecera até então, não era possível que o fizesse de repente. Nascera assim meio estranha com aquela capacidade de pensar pouco naquilo que doía que era para evitar ficar com a cara amassada demais depois do choro.
Apesar do tácito acordo de cavalheiros entre ela e Vicente a culpa católica herdada dos tempos do colégio interno (herdara ainda tanta coisa daquela época) ainda lhe pesava as costas. Por que continuavam sorrindo para fotos juntos, os casos dele muito bem guardados e o dela... Bem aquilo também era novo, não sabia muito bem classificar o que era, fora ou poderia ser. Por que numa noite em estrelas se deitara com o motorista, deviam ter a mesma idade, apesar dela parecer, ou se sentir, tão mais velha.
Ele falava de tanta coisa, ela apenas ouvia, e depois...bem depois era aquilo, que tinha vergonha de pensar, por que com o marido dizia “fazer amor” , por que afinal de contas  sua obrigação era amar o marido, mesmo que não fosse assim, fingia que era e pronto. Mas quando se tratava de Danilo, qual era o nome a do que faziam?
 Com nome ou sem nome vinham fazendo-o sempre, Carmem era prima de Vicente, mas pouco se importava com aquilo, muito dinheiro e ninguém a vista era o que Carmem tinha na vida, torrava tudo em festas e quando Vicente sumia no final do ano, consumido também na própria dor de sua perda (ele perdera a primeira mulher na véspera de Natal num acidente de automóvel. Ela estava grávida do segundo filho deles.) ela nem hesitava em chamar Danilo, que tinha o pai italiano e que viera de São Paulo, que falava com aquele sotaque e dizia que um dia ia levá-la para conhecer a Itália, por que o pai viera de lá, e dizia lindas poesias bêbado, ela ria-se, o álcool e o furor apaixonado dos homens são muito úteis por algumas horas, mas demorar-se neles tornava-se o problema. Até gostava de Danilo, por que falava muito e não fazia perguntas, ela se distraia deveras e ele nem sabia o quanto, mas agora havia a ressaca. Ele achava mesmo que tinha novidades, justo ela que já vira tudo, ela que já sabia tudo, ela que não tinha mais novidades.
Ele agora dormia, o quepe no chão ao seu lado, era manhã de Natal ,o sol brilhava lá fora e ela se levantou. Em silêncio se vestiu, não sem uma pitada daquele cômico pudor que lhe sobrara também da época do colégio interno (herdara ainda tanta coisa daquela época). Então acordou-o. Ele sabia bem que quando o dia amanhecia ela era de novo a mulher do patrão, e por isso quando era assim não se falavam.
Depois de descentes, foram ao carro, não sem antes passar pelo jardim gramado que repousava ainda na bagunça do dia anterior. No caminho, recostada no estofado de couro amarronzado ela via o mar brilhando ao sol e teve vergonha das coisas que fizera, apesar de serem muito boas de se lembrar. Se pelo menos conseguisse nomeá-las, não sentiria tanta culpa e para passar o tempo colocou-se a pensar. Na falta de substantivo próprio continuou utilizando-se do pronome demonstrativo “aquilo”. Chegou em casa e tomou um longo banho. Vicente chegaria logo logo.

sábado, 20 de agosto de 2011

Os doces anos 50.....

O menino andava as voltas com os livros uma vida inteira. Assim como os outros de sua idade gostava também de uma boa pelada, mas lia, escrevia e as vezes e ouvia o repórter esso com a avó. Já ia ele pelos onze anos e todos os dias por volta das cinco e meia via passar pela sua rua o professor Eduardo, em direção a casa assobradada  em que morava, logo ali na  esquina. Não era sem admiração que via o homem de chapéu e bigodes fartos passar com sua pasta nas mãos, lecionava no cientifico e no normal da escola com o nome do fundador da cidade e parecia inspirar nas pessoas um respeito de autoridade muito maior que o próprio delegado. Achou aquilo deveras bonito e um dia,  enquanto ouvia o Repórter Esso ao lado da avó, confidenciou-lhe "Quero ser professor..." .No que a avó, tão encurvada pelos anos,  fechou aqueles olhos que por pouco não nasceram escravos e não sem rir-se apenas murmurou "além de preto e pobre, é louco!"

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Conselho de Segurança.

    Ela ainda pensou antes de lhe dizer, por que a tarde caia pesada de sol e calor e não haveria mais volta, depois de ditas as palavras fogem do controle, não são mais de quem as proferiu, sempre a mercê da hermeneutica alheia. Todavia era necessario. Arrumou a boina do uniforme que insistia em cair e enfim discursou: "Se houvesse um conselho para te dar nessa vida...Não, nessa vida não, por que essa vida é tempo demais e os conselhos, assim como concursos públicos e provas de certificados internacionais,  também caducam. De um dia pro outro as coisas mudam como se nunca tivessem sido diferentes. Bem, se pudesse então te dar um conselho para esse momento te diria, ou melhor imploraria, por que tenho por voce aquele apreço que dedico a poucos, pediria que por favor não caisse na besteira de se apaixonar por mim. Isso seria devastador no sentido mais negativo da palavra. Te faria infeliz, te faria miserável,  não se apaixone, fuja, com insanidade, fuja como se mais de duas pernas houvesse, corra sem olhar para trás, como se estivesse tentando alcançar um prato de comida após tanto tempo sem comer. Não sei se isso trará felicidade mas tenho por certo que evitará transtornos, evitará tristezas, evitará misérias...O que já é grande coisa nos dias em que vivemos..."
 Ele foi embora sem responder nada. Era tarde demais.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Portas são Metáforas ou O Posfácio do Epitáfio

"Bateram na porta, hesitei, não quis abrir. Bateram de novo com força, mas depois não insistiu, desceu as escadas em silêncio e para sempre partiu. Partiu deixando na porta estas palavras fatais:'Eu sou a felicidade e não voltarei jamais.' " Clarice Lispector.




    Um dia qualquer ele resolveu abrir a porta e ver o que estava acontecendo lá fora. O que não deixa de ser louvável, uma vez que há muito que se ter pena de quem morre e não vai a porta pelo menos uma vez  na vida.
Mas há lá fora também um problema, por que aqueles que vivem lá  muitas vezes não percebem a loucura em que estão imersos e quando finalmente voltam para dentro acabam sentindo-se mal por melhor que estejam, tão acostumados estão as intempéries as quais se expõem desprotegidos. Acostuma-se com o mal e ele fica sendo bem muitas vezes por mais mal que seja.
            Pois então que um dia ele quis abrir a porta e pediu de volta as chaves, que ela lhe entregou não sem certo pesar, por que abrir a porta novamente na maioria das vezes não é coisa fácil. Assim sendo, ora assim sendo, ele finalmente saiu e o sol ofuscou seus olhos  e por muitos instantes tudo que viu foram vultos da verdade mas nada muito consistente, apesar de divertido. E foi andando assim às cegas até que os olhos foram finalmente se acostumando à claridade e as coisas foram parando de fazer sentido. Caiu ele então em desespero, tentando coçar os olhos, querendo novamente deixá-los turvos em vão. Mas uma vez que viam tudo não havia mais como cegá-los novamente e com a luz veio a verdade e a verdade era pesada.
            Voltou-se e pensou em novamente bater a porta da qual saíra, mas que loucura, a porta agora estava fechada, não sabia se alguém ali ainda havia que pudesse lhe atender. E se batesse a porta, alguém lhe atenderia? E se atendesse, seria a mesma coisa? E se o fosse, aquilo ainda o satisfaria? Era tanta duvida que vivia que já nem sabia se arrependimento havia.
 E tanto ela lhe avisara antes de fechar a porta por completo, mas vontade de moço é surdez de conselho e preferiu viver a moda das gentes de seu gênero, a necessidade de aprender sofrer sozinho para ver o que é bom , por que as palavras jamais lhe foram úteis, mesmo que diversas vezes sábias.
Sentado numa pedra agora ele jaz no meio do caminho, meio morto, meio vivo, esperando endoidecido por uma porta que se abra, uma porta que o acolha, sem entender que  jamais se sentirá em casa enquanto não se ajustar na própria casa que leva dentro de si e quanto a isso não há saída. As duras penas é preciso aprender a viver.

domingo, 7 de agosto de 2011

Sadismo Materno

Bem, se você quer saber mesmo como aconteceu, eu digo, foi tudo mais ou menos assim, Vitória, eu estava fazendo faculdade, fui a uma festa estranha dos alunos do curso de engenharia, fora do campus. Lá pelas tantas, como já não era suficiente aquele monte de gente bêbada e aquelas músicas babacas, vomitaram nos meus sapatos.
  Fiquei algum tempo morrendo de frio no ponto, esperando o primeiro ônibus da manhã passar, quando peguei carona com um cara com quem eu nunca tinha falado, que fazia engenharia também, que era mais velho e que me levou pra casa e algum tempo depois pro altar. E que depois virou seu pai e pai dos seus dois irmãos. Mas, veja bem, isso não é motivo pra você querer ir a festas da faculdade, muito menos para voltar de carona com desconhecidos de madrugada!
-Mas mãe não é uma festa da faculdade, é uma festa que as minhas amigas que fazem faculdade estão fazendo. E o irmão da Ba, o Thi, não é um desconhecido!
-Vá para seu quarto Vitória e reflita sobre a menina má que você tem sido!
-Mas mãe, você é muito malvada, cara! Por que você podia e eu não! Por que?
- Por que eu sou sua mãe, filhinha,e isso além de me dar algum poder sobre você ainda me dá o direito de não precisar ficar justificando meus atos.
-Eu faço dezoito anos daqui a uma semana!
-Pois é.Vou aproveitar a semaninha de poder que ainda me resta!
-Mãe ,sem sombra de duvidas.Você é sádica!

sábado, 30 de julho de 2011

História não muito triste sobre a morte de um rapaz....

Eu poderia até ter sido menos emotiva, mas é que não conseguia, não dava, entende? Ai eu chorei como uma criança que perde o doce quando fiquei sabendo, a gente quando é mais nova e menos calejada sente dessas, mas acho que se fosse agora também sentiria a mesma coisa por que posso afirmar sem medo nenhum que nunca mais na vida vi algo semelhante ao que aconteceu conosco.
Mas ai eu fui embora, ele também seguiu o caminho dele e a vida foi seguindo. E então depois de algum tempo, nem foi tanto tempo, sei lá uns seis anos ou sete, ele morreu. Foi isso mesmo, ele morreu. Do nada assim, e na verdade é bem como um amigo da faculdade me dizia “Esse mundo tá perdido, hoje me dia quem nunca morreu tá morrendo”, veja bem a novidade! Ele morreu, olha só, morreu, novinho ainda que era, até o irmão veio da Europa só para se despedir, eu na verdade teria vindo até do quinto dos infernos, por que essa coisas são assim mesmo.
E quando fiquei sabendo foi aquela dor meio aguda e aquela sensação que não tem nome, mas fala por si mesma “Caramba, nunca mais vou ver de novo!” foi bem assim que aconteceu.
Já não existia mais nada há mais ou menos isso, uns seis ou sete anos, não me lembro e nem me mande lembrar a essa altura da vida, mas eu já tinha me divertido com alguns amiguinhos no meio do caminho e ele noivado com aquela milionária lá que dava tudo pra ele a começar pela bunda e terminar pelo dinheiro, sou mesmo uma velha depravada falando essas coisas.
Eu já ia pelos vinte e poucos anos naqueles tempos, e quando fiquei sabendo fiquei bastante inconformada com o destino, poxa vida, ele ter arrumado aquela ricaça para compensar as perdas que teve na vida tudo bem, afinal de contas mesmo a distância eu o mantinha por perto. Sabe, o que as pessoas não entendem é que tem coisas que não funcionam de forma tão ortodoxa. Você pode amar muito alguém e mesmo assim se conformar com a ausência dela, por que ás vezes as coisas não dão certo. Mas de qualquer forma você sabe que ela estará sempre por ali, e ainda que não haja mais nenhum contato físico, o que foi o meu caso, há sempre a impressão que a sua presença na vida do outro é constante e isso já se torna suficiente, mas morrer? Que merda era aquela agora de morrer?
Daí eu fiquei louca da vida e mandei tudo às favas, o velório chiquérrimo, e eu entrei lá chorando no meu canto, ainda estava de canto, mas a dor era tal dilacerante que a noivinha-de-sobrenome-importante estranhou deveras, por que até ali eu não duvidava, ela sabia que eu existia, mas não lembrava minha cara, num momento daquele ninguém lembra a cara de ninguém. E tamanha era a minha dignidade que ninguém me tirou dali. Até ela sabia o tamanho do que a gente tinha tido, mulher sabe bem essas coisas, me olhou de canto como quem diz “chore ai no seu lugar que eu choro no meu” e morreu o assunto também, além do meu amado, é claro.
Fiquei então chorando no meu canto olhando aquele caixão enorme, por que ele tinha mesmo um corpanzil, aquele caixão enorme com aquele homem tão novo dentro e me perguntando que diabos o mundo queria de mim depois daquilo. É claro que sobrevivi senão não estaria contando essa historia pra você, mas naquele momento achei que não. Mentira vá. Achei que seria chato, achei que seria dolorido, mas nunca achei que não conseguiria, mas agora, a viúva oficial parecia dopada, e a louca-lésbica- racista com seus dedos gordos  roídos nas pontas se fazia  de mãe preocupada sentada na beira do caixão com um terço na mão me olhando de soslaio de vez em quando, quieta mas achando de muito mal tom eu ter ido até lá. Minha preocupação com isso era tão mínima dentro da minha própria dor e a minha própria raiva da ausência que ele me proporcionava era tamanha que tinha vontade de ir lá estapeá-lo dentro do caixão mesmo “Seu filho da puta, me faça o favor de ressuscitar!” eu nem me importava com mais nada.
Daí, depois que o enterro saiu e eu ainda fiquei chorando o vazio do caixão, eu pensei, bom ele já não está mais mesmo por aqui, é melhor que eu me defina de vez nessa vida. Depois de algum tempo eu fiquei me perguntando, e na verdade cheguei a ficar até ansiosa pra me apaixonar de novo, e como um insight eu conclui que aquilo tudo que eu tivera fora muito mais do que espontâneo, viera do nada e se fora do nada, amores surgem do sovaco de Deus e eu só fiquei esperando, por que era só o que me restava mesmo.
 E então eu queria terminar essa história com uma coisa positiva, por que falar de morte nunca é bom. Não é mesmo, de fato concordo. Mas, fico por isso mesmo. Aliás se querem uma coisa positiva mesmo assim eu digo, a dor é uma droga, mas passa. E todo mundo sobrevive. Menos o morto é claro que nesse caso já esta morto mesmo, então não faz diferença.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Não trocaria um sorvete de flocos por você...

Uma gracinhade musica, uma gracinha de clipe.....daqueles de virar a cabeça e dizer oooooooooooooooow!

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Sonhos de Veraneio numa Tarde em Tremembé.........


Minha embriaguez era doce e leve como as demais e fez-me sair entre murmúrios para andar pelos meus devaneios e ver o que ainda havia ali. Território há tanto tempo abandonado, de teias e cacos quebrados, pedaços de histórias incompletas que iam se acumulando, como no baú de uma velha louca, que guarda para lembrar o que gostaria de esquecer.
Coisinhas sem muita importância, alguns pensamentos são simplesmente esquecidos sem maior dano ou preocupação, eles simplesmente somem de nossa idéia. E esperam oportunidade de vir à tona novamente, se assim houver chance. Mas nem tudo tem tanta importância, eu ri comigo mesma, nem tudo é assim tão importante que mereça ser lembrado, melhor que fiquem por ai essas idéias, a nadar no lodo do esquecimento, eu estava tão leve.
Encontrei a piscina azul cheia de presenças disformes e alegres, cujas gotas d’água refletiam a luz do sol da tarde. Quatro horas e suas flores turvamente lilases. As janelas e suas grandes conversadeiras. Em mim nada mais do que idéias incertas. Pensei em sorvete. De casquinha, para derreter com o calor e melar as mãos de cor de rosa. Havia uma certa aura paternal naquele sol que me levava a tomar sorvete no meio da tarde, caminhando pelos ladrilhos antigos, que faziam um barulho preguiçoso quando em contato com  chinelos. Do meu lado alguém também ia em sua preguiça, que importava se tivesse um nome ou morasse longe, ou perto que fosse, fazia calor como há muitas datas não se via, calor de embaçar as vistas, calor que emanava do chão, reforçando o abraço do sol no mundo. Olhei para frente e vi aquelas montanhas tão longe, milhares de anos e imóveis, o vale sempre tão quente... De longe eu via o calor subir dos ladrilhos e ri novamente, eu vi o calor! Nem tudo tinha tanta importância...
Ainda ao longe havia murmúrios de murmúrios, sentei-me no chão no salão de piso de madeira e toquei meus pés. Piso de madeira me dá vontade de deitar, de dançar, de correr. O espelho que ali jazia refletia ora luz, ora sombra, conforme Helio dançava pelo céu. Ainda ali sentada, ora na sombra, ora na luz alaranjada da tarde que se esvaia como o suor em minhas espáduas, eu vi o lago verde e suas florzinhas mimosas e lilases, como as flores do resto das flores do mundo.
O lago era verde e também era calmo e também era bonito, se é que algo havia de feio naquela tarde que se esvaía. As outras presenças aliviavam o abafado do tempo na piscina azul com detalhes esverdeados, eu quis saber a data daquela piscina de azulejos pequenos, mas não pude, pois momento houve em que meus olhos fixaram naquele que veio do lago e surgiu assim, a brisa quente e eu quis mergulhar para saber de onde vinha aquele moço tão grande, que enchia meus olhos, e as gotas de água do lago verde que  vinham pelas pernas e encontravam o chão dolorosas de terem de se soltar daquela epiderme convidativa. Elas refletiam aquele sol acolhedor e ele enchia meus olhos e como sol me esquentava. Parecia levemente embriagado. Ou eu via dessa forma.
         Ele veio e eu pensei que poderíamos nos sentar em alguma varanda e ver o resto da tarde partir, ainda faltava alguma boa parte dela a se ir embora, posto que havia então um decreto real a nos dar uma hora a mais de presença solar. Abri mais os olhos. Minha pele estava tão úmida quanto à dele. Era o calor me roubando os líquidos vitais. Eu não me importava, era tão bom aquele dolce farniente. E assim deitada eu permaneci durante muito tempo, o chão de madeira e a respiração, observar era tão bom, eu permaneci quieta a admirar a vida, até o momento em que me chamaram de volta... E eu acabei acordando na cama, ensopada em suor e desejo, mas o tempo já havia passado e noite chegara para nada, pois de que adiantava me privarem do sol se não cessa o calor, que embriaga, que devaneia? Virei-me no incomodo da úmida cama e tornei a dormir, para voltar até lá. Em vão. O sono me levou para caminhos gelados que não aqueles e me perdi para sempre da tarde, do lago e do moço.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Seu Fritz



Quando seu Fritz morreu, descobriram que ele era um nazista disfarçado de padeiro que passou os últimos anos sendo tratado com carinho por uma Negra Doceira que saia todo ano no carnaval vestida de baiana.
Encontraram uma suástica, algumas medalhas da época, uma foto autografada do Hitler que eu guardei de souvenir antes dos pesquisadores chegarem e todo o resto virar peça de museu.  A Negra Doceira riu “O velho era mesmo maluco!” e todo mundo ficou sem entender nada, como a negra e o nazista se deram tão bem nos últimos anos.
Quando seu Fritz ficou doente e fechou a padaria, a Negra, que era empregada, virou patroa. O velho já não tinha ninguém, porque o Marcelo fazia tempo que tinha sumido pelo mundo com o circo, atrás da trapezista ruiva que também se contorcia dentro de um baú. Seu Fritz veio pro Brasil e tomou bastante sol na cuca, andava de bermuda, mas essa gente de circo para ele de qualquer forma não prestava e antes de proferir o fim dessa mesma frase, o Marcelo já virara a curva da estrada no lombo de um camelo, então sobrou só o Fritz e a Negra Doceira que não levava ninguém a serio, muito menos o velho, que falava enrolado não se sabia a certa altura se era do derrame ou do alemão mesmo.        
                A Negra Doceira levava seu Fritz pra passear na cadeira de rodas, ele ficava lá parado murmurando coisas ininteligíveis, o sol batendo de leve no rosto por que era de manhãzinha. Até adoecer ele não falava muito mesmo, mas depois, parecia que ele queria por tudo para fora, gritava lá as coisas dele, mas ninguém nem imaginava, o que todo mundo sabia era que ele tinha fugido da guerra uma vez, e como quem foge da guerra geralmente foge por que não concorda com ela, seu Fritz era visto até como uma pessoa querida. “Um herói” ou coisa de tipo. Isso, é claro, até o momento em que as pessoas descobriram que ele era nazista.
Na verdade ninguém por ali sabia muito bem o que era isso. O seu Eduardo, sujeito metido a ter muita cultura e que às vezes servia de juiz das causas que as pessoas não sabiam muito bem como dar seu próprio veredicto, pois ele mesmo sentenciou: “ Nazista é um tipo de gente que mata todo mundo com quem não vai muito com a cara. Na época da guerra mataram muita gente lá na Europa, preto, branco, índio, judeu, inclusive brasileiro!” E depois disso ninguém mais gostou do seu Fritz. O que não adiantou muito  por que ele já estava morto mesmo à essa altura, para alivio geral “escapamos de uma boa, hein, pensou se o velho encasqueta com a gente antes de ficar doente?” comentava-se a boca pequena o que só fazia a negra Doceira morrer de rir no botequim “ Aquele velho não matava nem mosca!Eu é que sei!”. Pois é. Ela que sabia.


terça-feira, 28 de junho de 2011

Somewhere Only We Know....

             Ela chegou atrasada aqule dia e todos os lugares estavam ocupados. Olhou para aquele único lugar vazio e lamentou-se . A aula passaria mais devagar e bem do lado daquele cara esquisito que não falava com ninguém? Ela sentou-se com a mochila abriu o fichário e como de praxe não quis saber do que se passava no quadro negro, apenas foi escrevendo nas folhas de bordas cor-de-rosa o refrão daquela música nova que ela achava que era daquela mesma banda que tocava a outra musica do piano interminável. Andava ouvindo por ai aquela música por que era bonita e lembrava de sol e suspirando pelos cantos pelo menino do primeiro ano, que por detrás da grossas lentes teve a sorte de ganhar seu coração com um oportuno elogio em sua voz empostada "Você cantou e dançou bem pra caramba na aula de teatro aquele dia..." e agora a escola que antes parecia um covil se tornara mais bela e colorida, por que aos dezessete anos tudo é motivo mesmo e se achava muito profunda." Você sabe que eu também adoro essa música?" o cara estranho ainda falou. Ela mal o olhou "É mesmo?" disse não sem algum descaso, caramba, gente intrometida deixava-a irritada, mas ele não parava "Eu vi clipe ontem, é muito legal..." e ela ouviu de novo  resolveu se interessar por que não havia ainda visto aquele clipe, e a conversa fluiu e depois disso o tempo passou, o rapaz do primeiro ano que usava grossas lentes ainda continuou com elogios muito oportunos o que a fez pensar que talvez o futuro fosse deles, e quando percebeu que não era ela chorou, mas chorou muito, como se dependesse a água do mundo daqueles olhos lacrimosos e naquele cara estranho sentado tão próximo ela viu um ombro bom e mais que isso, os olhos racionais que nunca tivera. Por que quando se explode em sentimento e não é possivel ver um palmo na frente do nariz, há que se recorrer a esse tipo de gente iluminada pelo dom do auto-controle, aquele cara estranho tava sempre perto dela, e riam muito sendo assim, por que para ele rir à toa era de praxe, acontecia o tempo todo, a porta da sala de aula batia, ele ria, um tom de voz diferente e ele ria e no dia que um dos maluquinhos daquele terceiro ano subiu na carteira e começou a berrar "minha honey babyyyyyyyyy" assim sem mais nem menos foi preciso um copo d'água para faze-lo acalmar o riso.  
        Quando enfim puderam respirar aliviados, no dia da formatura, onde finalmente se livrariam daqueles chatos incômodos que a escola às vezes proporcionava, por que as relações ali dentro se davam de forma não muito  pacífica, e as pessoas insistiam muitas vezes em magoá-los sem maiores motivos racionais, enfim, esse dia foi também foi o dia em que viu que eram mesmo bem amigos por que depois disso ele se foi e ela também, cada um pro seu lado, cuidar da  vida, ele correu atrás de estudar os frascos e comprimidos e meu Deus, acabou descobrindo uma planta!
         E houve aquela vez também do livro, por que se dava a escrever as coisas ele lia com muita atenção aqueles rabiscos e se não gostava também não escondia, mas o importante era que não parasse , ele dizia sempre, não pare com isso, por que é o que faz de voce o que é...mas houve a vez em que ela fora tão empurrada para baixo, de forma que se rastejava por ai pelos cantos, mas foi um livro, apenas um livro  de um escritor que segundo ele seguia por caminhos parecidos com o dela, esse livro assim comprado, de forma tão repentina, ele lhe deu o livro e ela sem graça, a ausência do presente reciproco "Quero um exemplar quando você lançar o seu próprio, autografado, por favor!" e ela até chorou depois mas não contou pra ninguém. E voltou a escrever claro, por que nenhum pseudointelectual da faculdade nunca mais conseguiu tira-la do próprio prumo novamente.
          E no final das contas, bem, no final das contas, havia muita coisa, mas muita coisa mesmo e ela pensava que deveria agradecer o Keane, (por que Somewhere Only We Know não era do Coldplay!) por que foi o clássico deles que acabara dando a ela o irmão que nunca tivera. E já que os rabiscos desse blog ainda não rederam aquela menina desconfiada nenhuma publicação que lhe dê o direito de dedicar e autografar qualquer coisa que seja, a dedicatória fica sendo virtual....
          " Ao meu querido amigo Renato Costa, dedico o blog a você por que por diversas vezes pude vê-lo muito mais empolgado com meus escritos do que eu mesma. Que Deus te cubra de bençãos. Feliz Aniversário!"

domingo, 26 de junho de 2011

Quando nasce uma criança....

         "Não sei... quando nasce uma criança não nasce apenas ela própria, mas uma serie de sentimentos e rearranjos novos no mundo, que deve tratar de se expandir para comportar mais uma pessoa. ..." ela concluiu ao olhar para o bebê que dormia e questionou-se como afinal de contas  o tamanho do mundo era sempre o mesmo se sempre havia muito mais gente nascendo do que gente morrendo. E isso constatava por que a avó fora parteira e saia o tempo todo para acudir mulheres pelos vales, dando a luz como coelhas, enquanto os cemitérios repousavam na paz de sua sepulturas intocadas, não sendo incomodados pela novidade de um defunto fresco já há muito tempo.
           Viu irmã engordar os nove meses não sem alguma repulsa, indo diversas vezes olhar-se no espelho e dar graças a Deus pela silhueta que ainda lhe pertencia "Mundo não é lugar de criança..." ela ainda murmurou mediante tamanha felicidade do cunhado, mas que coisa era aquela agora, aquele tipo de desejo, aquele de por mais gente no mundo nunca lhe parecera certo afinal de contas. A vontade de parir era capricho de gente egoísta, pensando na própria satisfação que teria em fazê-lo e não nas consequências daquilo para o pobre que nascia, afinal de contas ela mesma, dando-se conta daquilo, teria fugido se pudesse, mas não houve como e lá estava ela, lecionando, comendo, andando e vivendo, caminhando, respirando, amando, odiando e mesmo sem querer a cada dia morrendo, por que a sina das gentes era essa mesma que não outra.                                             Colocava-se os pobrezinhos no mundo sem consulta-los a vontade de viver, impelia-os a vida os pais, mesmo sabendo aquilo que viria cerca-los em virtude disso. Por pura compaixão dos próprios filhos não nascidos, ela que ainda era moça,  achou por bem dar um basta aquela crueldade e da sua parte pensou "são mais felizes nos planos das ideias." enquanto,  com o calor abafado do Rio de Janeiro ao seu encalço, ajudava a irmã a locomover-se pela casa, a tricotar casaquinhos e pensar em nomes ou calcular datas.
            Eis que veio então um dia e depois veio a  noite e veio com ela finalmente o rebento, resolvido que era  hora que enfrentar sua sina e cumprir sua obrigação, que ali naquele momento era nascer. E cumpriu-a muito bem , por que nasceu sem maiores problemas. 
E quando finalmente o viu, achou-o gracioso no seu sono, tomou-o nos braços e pensou no mundo, como era grande mesmo para caber todo mundo, devia haver algo que se movia para expandi-lo quando se nascia alguém. O menino abriu os olhos castanhos e como se adivinhasse seu pensamento disse-lhe rindo "Egoismo seria  não me dar a chance de nascer e de tentar ajudar a  fazer esse mundo fedido ai de fora virar uma coisa melhor!" e voltou a dormir. Ela riu-se "Essas crianças de hoje já nascem respondonas!" colocou-o de volta no berço e resolveu que já estava na hora de dar sua contribuição para o mundo. Foi correndo aceitar o convite do vizinho engenheiro.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Fetiches Verbais (com a colaboração de Natália Gonçalves)

        Eu não sei o que acontece por que fui muito bem criada, minha mãe como todos o sabem, é uma mulher de princípios muito sólidos e educação esmerada, então não consegui descobrir ainda em que momento da minha vida minha boca se tornou, no vocabulário das professorinhas horrorizadas, tão suja. Talvez tenha sido na escola de freiras em que estudei. Ou depois de 4 anos em republicas mistas, onde todo tipo de vergonha verbal que poderia existir em mim se foi de uma vez. Com tudo isso quero dizer que compreendo perfeitamente que nem todos aprovem esse tipo de conduta, mas por que meu Deus, por que eu sempre trombo com pessoas que tem verdadeiros fetiches verbais, não falam certas palavras nem por todo dinheiro do mundo?
       Há alguns dias um amigos quis referir-se a cloaca humana que todos temos entre as nádegas, carinhosamente apelidada pelos brasileiros de cu. Mas o sujeito se engasgava e quanto mais ele se engasgava mais eu dizia "cu, cu,cu!"  Ele simplesmente não conseguia e eu fui ficando nervosa e os amigos ao lado começar a repetir cu cu cu , foi um coro muito bonito por sinal, mas o pobre não disse a palavra "Não estou acostumado com esse tipo de vocabulário!" ele rugiu entredentes e mudou de assunto.
Sobre esse assunto de tão esmerada importância, falou o sábio Millôr Fernandes :
          "Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para prover nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade nossos mais fortes e genuínos sentimentos. É o povo fazendo sua língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que vingará plenamente um dia.(...)
          E o que dizer de nosso famoso "vai tomar no cu!"? E sua maravilhosa e reforçadora derivação "vai tomar no olho do seu cu!". Você já imaginou o bem que alguém faz a si próprio e aos seus quando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta: "Chega! Vai tomar no olho do seu cu!". Pronto, você retomou as rédeas de sua vida, sua auto-estima. Desabotoa a camisa e saia à rua, vento batendo na face, olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor-íntimo nos lábios.(...)
         Sem contar que o nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de "foda-se!" que ela fala. Existe algo mais libertário do que o conceito do "foda-se!"? O "foda-se!" aumenta minha auto-estima, me torna uma pessoa melhor. Reorganiza as coisas. Me liberta. "Não quer sair comigo?
Então foda-se!". "Vai querer decidir essa merda sozinho(a) mesmo? Então foda-se!". O direito ao "foda-se!" deveria estar assegurado na Constituição Federal.
Liberdade, igualdade, fraternidade e foda-se."


Em tempo: Cu em Portugal é a referencia que eles tem pra bunda. Vê só como estamos sujeitos a fetiches verbais culturais locais. Uma parte do corpo tão importante, sem ele nós acabaríamos igual o pintinho da piada, enfim...

Seis e Trinta e Cinco

(ainda que caminhes ao olhares no relógio, reflete, aquele minuto foi nosso)


E então, a quantas anda sua vida, minha cara?

           Aqui as coisas me parecem bem , afinal. Os dias começam e terminam, as pessoas nascem e morrem. As ruas continuam em seus lugares e as casas daquela época resistem bravamente ao tempo e a modernidade famigerada que corrói, que atropela, que deprime.
         O sol ainda se põe no final da tarde como de costume, tomando a avenida principal e se escondendo na serra. E é graças às casas que resistem que ainda podemos ver tudo isso. Aqui os prédios ainda não arranham o céu.  As pessoas ainda caminham nas praças. As árvores ainda dão sombra. Mas os lugares vazios permanecem vazios.       Às seis os sinos badalam, mas já não há ângelus nas casas .Os carros se multiplicaram e as seis e trinta e cinco é possível ver no céu os efeitos alaranjados dos gases laçados por eles. Há ainda o mesmo burburinho, há ainda as luzes que acendem preguiçosas e há nesse instante o nó na garganta que há tanto tempo me acompanha e não tenho forças para desatar. À essa altura, já nem sei se quero.
     As seis e trinta e cinco eu ainda não faço uso da eletricidade para deixar os restos de luminosidade entrarem pelos cômodos por que tenho medo de mim. Escrevo no escuro para que você saiba que aqui tudo muda para permanecer igual. Para te dizer que queria contar novidades maravilhosas para te instigar a voltar (por que isso sim moveria o mundo de lugar), mas como já é sabido, me ensinaram na vida de tudo, menos mentir.
         Mas um dia há que se querer voltar, há que se procurar as raízes dessa sua existência tão colorida e tão distante. Por que não importa quão longe caminhe, haverá sempre o acontecido e lembrar ultimamente foi só o que me restou. Não há como substituir o passado por um presente fugidio em sua essência por essa superficialidade tão vaporosa que some das vistas como um sonho de uma sesta numa tarde quente de verão. Há sim, um dia que voltar.
         E quando voltar verá com os próprios olhos a velha mesmice e talvez assim também se veja parada no tempo. E encontrando-se assim talvez consiga mover as coisas de lugar como sempre foi de sue feitio, por que se ainda há a lembrança há agora também a espera.

                            Deixo-te um abraço desde já.


sexta-feira, 3 de junho de 2011

Isto é...Taubaté!

Ele se aproximou com o copo de vodka com energetico na mãoe  a camisa polo com algum emblema falso, uniforme de todos os homens ali, o cabelo bem cortado e o pescoço exalando O Boticario:
-E ai beleza?
Ela o olhou do alto de seu salto, de seu cabelo progressivo, de sua maquiagem a la Julia Petit e pensou que beleza ali passava longe, mas continuou sorrindo na esperança que ele se aproximasse novamente e lhe dissesse:
- E ai, riqueza?
Salvando assim a sua noite e quem sabe sua vida.

terça-feira, 24 de maio de 2011

La Vie en Rose


                                    
O que sei é que de uma hora para outra passei a admirar nadadores. Pensava que nadar era o dom de voar sem asas. Enfim, tudo muito cor de rosa, eu era um tanto fútil por esses idos. Pretensão minha, eu continuo tão profunda quanto um pires. Só que agora mais velha.
            Havia o Ulisses que sempre nadou muito bem. Competia, eu achava isso incrível. Eu sabia de tudo por que meu irmão também nadava. E também competia, mas isso já não me soava nada maravilhoso. Meu irmão era presença tão marcante que ás vezes eu o confundia com algum móvel da casa. Já Ulisses, bem, esse irradiava energia, era luminosidade pura, cheio de vida, vivesse eu à minha vontade, perambularia o tempo todo atrás dele pelas piscinas da cidade. Ele e meu irmão eram tão amigos que pareciam irmãos.Todavia, se sozinho meu irmão mal se fazia notar, ao lado de Ulisses ele virava novamente mobília ou algo do tipo.         
Eu não costumava ir as competições de meu irmão, aliás nós mal conversávamos, só quando Ulisses estava lá em casa que eu me interessava sobre isso. Ele contava-me, sempre sorrindo, maravilhas sobre as provas. Eu o imaginava  pulando nas piscinas, a água envolvendo seu corpo como um cobertor macio, ele planando leve sob elas e emergindo no final, sendo o campeão. Enquanto isso meu irmão mal abria a boca.
            Um dia, depois de tantas perguntas, Ulisses me convidou para ir a uma competição, disse para minha mãe que ia ser perto de casa,nada que demorasse muito. Mamãe relutou, sempre muito pudica, filha moça não deveria ir ver homens em traje de banho. Mas Ulisses tinha mel em suas palavras, mamãe consentiu, recomendando a meu irmão que ficasse de olho em mim.
 Mal pude me conter quando o domingo amanheceu. Os dias fatídicos sempre amanhecem com o sol meio embaçado, eu só fui perceber isso alguns anos depois quando ousei lembrar-me de tudo novamente. O sol opaco, mas eu radiante, mal me contendo. Da arquibancada cheia de mocinhas empolgadas como eu, vi Ulisses tirar o roupão e fazer o aquecimento.
            Todos em suas raias, frio na barriga, a largada e todos á água, exatamente como eu sonhara, Ulisses em câmera lenta para mim. Foi então que eu vi, na borda da piscina, mãos conhecidas, parecidas com as minhas, mãos de meu irmão, saindo da água antes de Ulisses e de todos os outros nadadores. Ele era o campeão. No público, apenas a minha comemoração. Meu irmão também não era grande presença entre as garotas.
Desci até o pódio e abracei Ulisses. Corpo ainda molhado, exalando um odor de perfume e  água de piscina, meu vestido ficou um pouco úmido. Abracei meu irmão também e pedi para o fotógrafo que estava por ali para nos fotografar. Aconselhei a ele, em segredo, que focalizasse apenas a mim e Ulisses e cortasse meu irmão ao máximo para que a foto fosse só minha e de dele.  A foto foi batida e nós fomos para casa, meu irmão com o troféu de primeiro e Ulisses com a medalha de segundo lugar. Em casa mamãe fez um bolo para comemorar. Comemoramos.
            Me lembro dessa tarde como se fosse um bloco só de tempo, como se tudo tivesse acontecido em pouco mais de dois segundos, até mesmo os detalhes menores não me fogem, mas passam rápidos como uma flecha. Sofá da sala no domingo a tarde, eu e Ulisses. Meu irmão subiu as escadas em direção a seu quarto, nos deixando sozinhos. Ulisses por um instante pareceu preocupado, ele era tão bonito, depois  me disse que eu nem parecia irmã do meu irmão por que era esperta e meio sapeca, disse que gostava disso e disse também que estava feliz em ver meu irmão ganhar por que ele andava triste ultimamente e no fim sugeriu que fossemos ao cinema e eu disse, feliz da vida, que sim, iríamos ao cinema.
                        Então o estampido forte. A casa tremendo. O silêncio estupefato. O grito maior de mamãe. A correria. Meu irmão estendido no chão. A arma em sua mão. Suicídio. Um tiro na própria boca. As pernas bambas, Ulisses me segurando, eu em choque. Mamãe chorando de medo e de dor. Dor pela morte, medo do castigo. Os suicidas e o inferno. Ulisses no telefone. A ambulância.. Horrível, horrível, enfim.            
            Alguns dias depois, o fotografo foi até minha casa, para entregar as fotos daquela última competição. Lá estávamos meu irmão, com apenas um pedaço do ombro e do braço aparecendo na foto, enquanto eu e Ulisses sorriamos inteiros, alegres e alheios.
Rasguei aquela foto e nunca mais quis ver Ulisses.

Um freezer chamado humanidade.....

         Essa tarde foi particularmente angustiante, a amigdalite, o frio que não me deixa dormir e o maldito baú que carrego sozinha nas costas cansadas, e não consigo lança-lo ladeira a baixo. Carregar um baú nem sempre é facil e eu já previa que isso ia acabar me deixando um tanto atormentada em algum momento. Um dia me disseram que o tempo ia passar, mas foi engano, por que ele corre, mas quando se carrega uma baú caminhar torna-se difícil, os passos ficam pesados, não se vai a lugar algum. E se se consegue chegar é atrasado, sempre atrasado, ofegante e sem entender ainda por que de estar ali.
              Há o corpo sonolento da infecção nas amígdalas. Mas há também o corpo cansado de carregar sozinho tanta memória, tentando as vezes conseguir alcançar o mesmo nivel, o nivel dos alheios. Esses existem e me causam inveja, olhem bem caros leitores, eu tenho inveja desses seres, que não se questionam e seguem vivendo, não têm a ninguém, nem a si mesmos por sinal, por que não precisam. E quanto a mim? Eu que não me basto, eu que vivo de questões, eu que carrego lembranças, eu que insisto em respeitar meu passado. Eu que talvez vá seguindo, por que isso é mesmo de praxe e mesmo com esse pesado baú que carrego sigo para frente sem saber de chegada.
              Ultimamente se há alguma surpresa com o mundo ela vem em forma de questionamento, ainda fico pensando "meu Deus quanta frieza..." e há mesmo muita frieza, mas, oras bolas, não deveria haver surpresa. Depois de tantas guerras, depois de tanto holocausto, de tanta imposição, tudo se repetindo desde que o mundo é mundo, os livros de historia e os jornais não me deixam mentir. Mesmo depois de tudo isso eu ainda me surpreender com a frieza do meu próximo só vem demonstrar o tamanho da minha inocência.Vou morrer com cem anos e não vou deixar de ser boba. Acho que é isso.Entendam como quiser.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Lá pelas duas da manhã....

    A madrugada já ia solta e naquele momento ninguém realmente tinha muita noção de quem era, bebeu um gole do liquido vermelho inflamável  e respondeu-lhe  "Não há o que se possa fazer, meu bem, não vou me jogar no amor, por que depois de todos esse anos descobri que desaprendi a nadar, seria irreponsabilidade de minha parte portanto entrar nesse tipo de água revolta de novo...". Ela acendeu um cigarro e sorriu. Ele fumou um trago e calou-se, entendendo muito pouco sobre metaforas.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Emacipação II

Dani: Pai, seu aniversário esta chegando, o que voce vai fazer?
Silvio Prado: Eu vou andar de onibus de graça e  pegar fila  preferencial no banco. Acho que só.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Emancipação!

Mentiras sinceras me satisfizeram por um bom tempo, mas raspas e restos deixaram de me interessar há muito tempo...

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Cantigas (humor de feriado)

* Sete e sete são quatorze, com mais sete vinte e um , tive três namorados do mesmo nome que juram  que ainda morro de paixão por cada um!
* Pirulito que bate bate, pirulito que já bateu, vou alimentar o ego deles pra poder aumentar o meu!
* Atirei o pau no gato-to, por que ele-le é sem vergonha-a, jurava-va que era amigo-go, mas no fundo ele só quis me embebedar...miau!
* A dona aranha subiu pela parede, depois de algum tempo ela se acostumou.
* Ciranda cirandinha, vamos todos cirandar, vizinhos dêem  a meia volta e parem de me atormentar!



voltamos com a nossa programação normal...

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Esquina

Que foi feito dos meus antigos amigos? Viraram poeira, viraram hipótese. Quando fui ficar mais velha houve uma encruzilhada, ou melhor encruzilhadas: varios caminhos se abriram à minha frente e à frente deles. Cada um escolheu um. Nos despedimos e fomos emfrente. As vezes em algumas esquinas há um encontro, mas nos acostumamos tanto a andar sozinhos que na ocasião do encontros preferimos dobrar a esquina e acenar de longe...

Eu, o casaco do vizinho e a noite que não chega nunca....

Volto para casa ao entardecer.O céu está pouco azul e muito amarelo e o vento está cortante.Entro no meu apartamento e a noite não chega nunca.Vou então até a laje do meu prédio,o céu agora meio azul,meio amarelo.Desejo encontrar meu vizinho lá,eu já o vi subir lá algumas vezes,e seria bom vê-lo por que o vento está jogando meu cabelo para trás e eu acho isso muito poético.

Porém,lá em cima não o encontro ,na verdade eu nunca encontro ninguém,por isso já desisti de visitar pessoas. As vezes sou dramática,tenho dó de mim,como uma mocinha de novela mexicana.Auto piedade porém sempre me soou piegas,desprezo gente assim.O defeito é exclusividade minha.Faz parte do drama.

Desço a escada espiral do meu prédio rumo ao meu apartamento.A escada parece cenário de filme de terror,lúgubre com aquela luzinha meio amarelada,mas tenho que passar por ela sempre,pois não há elevadores,meu prédio é subdesenvolvido.

Chego de volta ao meu apartamento e ainda não é noite,é horário de verão,aliás que verão?É outubro e venta gelado como em junho.Parece até uma tentativa maluca do governo de importar os finais de ano gelados da Europa.

Beiro o ridículo e divago debilmente no sofá,enquanto ouço passos na escada espiral e um barulho na fechadura alheia.É o vizinho chegando ,cansado da labuta.Trabalha em fábrica.Um partidão!”, diria minha mãe. Toda mãe quer um genro que trabalhe em fábrica.

Cochilo e acabo sonhando que o vizinho vinha sobre mim e assoprava meu umbigo, com um barulho característico, como o que a gente faz com criança pequena.

Acordo assustada com a campainha.Pela janela ainda restam muitos vestígios amarelos no céu azul marinho,e eu sinto meu umbigo se perguntar se o vizinho realmente o assopraria na realidade.A campainha soa mais uma vez,impaciente. Abro a porta.È o próprio.Pergunto-me se ele também é sozinho.Deve ter uns trinta e dois anos.

-Vinte nove –ele me responde com uma xícara nas mãos.Eu não sou boa em adivinhações ou a labuta envelheceu meu vizinho?Ele veio apenas pedir café emprestado.E eu me resignei como sempre.

E nada da noite chegar.O vizinho volta para casa e eu deito no sofá outra vez.Havia um corpo estranho ali, um casaco esquecido.Deito no tapete, agarrada aquela terna lembrança, que exala odor desagradável de suor, mas é cheiro de gente, e eu sou a Robson Crusoé urbana,me apego a qualquer vestígio de humanidade.Seria o vizinho meu Sexta-Feira?Se for,chama-lo-ei Sábado ,pois no sábado é que as grandes coisas acontecem.De qualquer maneira sexta feira é dia de macumba e meu vizinho não merece tal alcunha.Sou viciada em português arcaico,amo mesóclises,me apego á elas por que foram esquecidas do vocabulário,assim como o casaco do vizinho foi esquecido em meu sofá,e eu fui esquecida do resto do mundo.

O céu agora é noventa e cinco por cento azul,já deve ter começado a novela,mas meus olhos estão pesados por isso eu os fecho tão rápido.Enfim a noite chega.Mas chega em vão,pois quando finalmente torno a abri-los,o céu está todo amarelo de novo.É dia e eu vou ter que esperar mais doze ou treze horas até ver a noite chegar outra vez.

domingo, 10 de abril de 2011

Das coisas que eu ouvi na faculdade...

"Mineiro gosta de ser capial.."( sobre essa coisa do orgulho mineiro)
"Nós os historiadores temos um problema...quero dizer, vocês têm , eu não..."
"Por que o que vocês não sabem é que um alemão já dizia isso antes do March Bloch"
"Pro pior não há limites!"
" Porrrque Varrrnhaguen dizia na página cento e quarenta e cinco de seu livro (..) da editora (...) lançado no ano (....) e no paragrafo (.....)"
"Hello, I'm Peggy Lee from Alabama!"
"E é isso, o resto da matéria a gente discute um dia no bar!"


..eu ainda me lembrarei de mais absurdos ditos pelos academicos desse Brasil. Sem o minimo vestigio de saudades, apesar dos risos.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Um Bom Partido ( breve epitafio do que viria...)

Um bom partido.Foi exatamente assim que ele se definiu.Engraçado.Foi como ver as mulheres da minha família descrevendo um rapaz que tenha um emprego numa fabrica qualquer e um carro.Não gostei.Ultimamente tenho me sentido sufocada como um peixe do lado de fora de seu aquário.Ossos do oficio de se estar no lugar errado no momento errado.Como diria uma tia ,cabeça não pensa,corpo padece.Mas,já que estamos aqui ,vamos ,que assistamos esse filme até o final, não é mesmo?Há sempre um diploma no fim do túnel,já diria o ditado.

Um bom partido. Eu já era pra ter me acostumado com esse tipo de comentário,afinal, depois de tanto tempo convivendo com tanta falta de jeito ,ou o cristão desiste ou persiste com fé.Eu tenho persistido com fé, levando nas costas meu pote sem fim de paciência.

Um bom partido.Ajoelho e agradeço a Deus tamanha benção .Todavia, a paciência que divinamente eu tenho tido tem me levando ao que os psicólogos chamariam de uma anulação de mim mesma.Pura rotina,eles dizem isso pra todas .De qualquer forma, o que os ingleses costumam chamar de myself trava uma luta diária para sobreviver.No fim do dia me sinto uma mulher de verdade....igual aquela do samba,lembra?

Um bom partido.É claro,foi só uma piada.Mas,conhecendo os homens de sua procedência sei ler o principio de verdade embutido em suas palavras.Não deixa de ser.Quando hoje em dia,vou encontrar um homem responsável ,estudioso,prestativo e bonzinho na horas vagas?Eu devia me sentir lisonjeada .

Um bom partido.E eu,uma indecisa na vida, de certa forma é assim que as coisas terminam.Não precisei viver muito para descobrir como as coisas funcionam quando se trata de relacionamentos.A principio ,sempre o principio,com a empolgação, vem a admiração.Compreensível em parte por causa da arte da retórica perfeita que me é inerente.Oras,uma mulher interessante,que fala bem,mas que no fim não se interessa por nada além de sapatos bonitos.

Um bom partido.Mas não me enquadro no seu perfil,de longe e sem óculos tenho certeza que é fácil enxergar.O que faço eu a perambular por ai com um candidato a intelectual?Ao meu QI mediano,um homem de exatas!Falta de valor por falta de valor, que eu tenha ao meu lado um homem de gorda conta bancaria.Gastar dinheiro não é algo que exija muito raciocínio de ninguém até onde sei.E a universidade tem se mostrado um antro de pseudo inteligência.O problema é que eu nunca soube fingir.

Um bom partido.Mas tenho um plano.Volto para casa da mamãe de mala e cuia e arrumo um trabalhador de alguma fábrica ,que tenha um carro.Sorte a dele,ora ora!Vai levar consigo uma Amélia cheia de veleidades culturais.Ela escreve bem,fala bem ,dança e até canta .Bordados e musicas ao piano a serem negociados.

Um bom partido.Algo que minha mãe sempre quis.Todavia ,eu de malas prontas e mudança arrumada ,ela sentou-se ao meu lado e advertiu-me sobre o tratamento que os homens daquela região destinavam as moças.Ora não seria possível,eu não acreditei.O mundo já dera voltas suficientes ao redor do sol depois que as mulheres queimaram sutiãs em praças públicas ,não era possível tamanha tolice de mamãe.Porém ela riu e hoje descobri:A tolinha era eu .

Um bom partido.Minha auto estima não gostou de ouvir isso.É claro,ela ainda existe.Mas a esperança é um sentimento mentiroso.Infeliz do homem que espera do homem um pouco de compreensão.E a arte é algo incompreendido, pobre daqueles que nasceram para ela,são uns imundos por que passam a vida tentando se fazer entender.E morrendo de fome nos intervalos.Bobagem tentar mudar.Os metódicos tomaram conta do mundo,bonecos e bonecas que me lêem,não tentem viver de arte,a menos que gostem de morar embaixo de pontes.

Um bom partido,foi o que ele afirmou.E todo castelo que tinha construído ao longo do tempo ruiu em uma frase.É o resto do myself gritando em sobrevida.Se hoje é assim,amanhã já não há.E não há desculpa.Foi o ato falho de Crasso que levou Roma ao fracasso.

domingo, 13 de março de 2011

Thiago' s Sweet Dreams..


O Tiago sempre dormia.Dormia na aula,dormia em casa.Ele sempre perdia o ônibus por que sempre dormia no ponto.Dormia nas férias,dormia na praia,dormia na praça.

As pessoas no começo achavam graça,porém ,após algum tempo se cansaram de assistir Tiago dormir no meio das conversas.Ele dormia e seu sono contagiava as pessoas.

Após a idade escolar ele passou a dar cursos para insones,nos quais ele apenas dormia e bocejava,contagiando os outros.

Se casou coma mulher de seus sonhos mas,não tiveram filhos.Ele dormiu na noite de núpcias.Se aposentou cedo,por invalidez.Era impossível trabalhar com tanto sono.

A vida para ele passou como num sonho e ele nem sentiu a diferença quando finalmente descansou em paz!