terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

sabotagem


Auto Sabotagem é meu nome do meio.
Eu em festas olho de longe o Laureano.  Diz a lenda que o tenho sentado na palma da minha mão, sossegado como uma criança comendo seu lanche na hora do recreio, balançando as perninhas e eventualmente bebendo cerveja num canto qualquer enquanto observa a movimentação,fazendo o que ele faz de melhor que é usufruir do rosto adorável que Deus deu pra ele. Uma inspiração artística interessante. No começo eu ainda o achava mais bonito, depois não sei se me acostumei ou se foi culpa da leve corcunda a se levantar dia após dia sobre aquelas costas. Ele senta errado há tantos anos que é capaz de virar o Quasímodo com a cara bonita na terceira idade. Lohaine aposta que será gordo. Como comedor inveterado que é , não duvido. Laureano gosta mais de comida que de sexo, quando algo lhe agrada o paladar seu semblante chega a ser tão obsceno que seria queimado na fogueira se comesse em público na idade média. Corcunda ou não, é um layout que pretende ser perfeito e se dá por satisfeito assim sendo.
Auto sabotagem é meu ascendente
Na noite de ano novo a japonesa louca de entorpecentes sentou-se ao lado dele e não saiu mais. Dizia aos quatro cantos que era lésbica, mas aquela noite, meus amigos, Feliciano se por lá estivesse sairia pela orla da praia gritando eureca por ter encontrado a cura gay. Observei de longe e tomei a Lohaine pelo braço "venha comigo para outro canto Lô, vamos das paz ao Laureano para que ele possa fazer o que bem entender!" como se assim eu desse permissão para que o verdadeiro eu dele saltasse para fora (ou o que eu entendo ser o verdadeiro eu dele no caso). O que seria o verdadeiro eu dele senão alguém sem a menor cerimônia em beijar outras bocas, com o mesmo semblante obsceno que expressa quando come uma picanha mal passada? O outro eu do Laureano sou eu de calças compridas, que não assumo por que tenho pudores católicos que não me abandonam, mas acredito que ele um sem vergonha ululante.
Arrastando Lohaine para outro lado da praia ela só faltou me dar Rivotril com olhos "Você está maluca, Raiza!" imagina, para Lohaine pareceu o mais perfeito absurdo que Laureano beijasse outra moça na festa estando eu nela. Acontece que a humanidade já teve coragem de fazer coisa muito pior, beijar uma moça numa festa enquanto sua namorada se diverte pulando sete ondas no ano novo parece brincadeira de criança. Tão plausível, Laureano fala manso com todas as mulheres que encontra pela frente e eu me pergunto qual se é charme ou excesso de erotismo mal resolvido. Ele só vê sentido na vida se fizer sexo. Sorte dele que vê sentido em alguma coisa.
  Eu de minha parte vou me dando a ele por pura vaidade ou a satisfação simples de que estou fazendo algo direito, eu não tenho feito muita coisa ultimamente então é justo que me dedique a isso. Nada de novo sob o sol. A humanidade trepa do mesmo jeito desde que éramos primatas,  somos os mesmos e vivemos como nossos pais, literalmente. Somos chatos, por isso nenhum extraterrestre  quer papo com a gente. Onde eu estava? Ah sim, sentada no sofá da sala, acendendo um cigarro atrás do outro esperando o Laureano ser um imbecil e transar com alguém da faculdade, do trabaho, da rua dele, do bate papo uol se é que isso ainda existe.
 Olha mas que vivência mais sublime essa a que me submeto, a espera do bote venenoso  do meu cônjuge, com uma ampola cheia de antídoto, tensão e desconfiança nas mãos. Mas o Laureano não me decepciona. O Laureano é uma decepção.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

O inverno vinha a passos largos e chegou em cadenca brusca roubando as doces certezas que permeavam meu verão. o inverno se apossou de tudo com seus dias curtos, as noites chuvosas, como um parente incomodo que se aloja em sua casa e não se sabe muito bem se um dia irá embora. intrometido pintou as paredes de cinza sem a minha permissão, quando eu mesma já tinha me esquecido que essa cor existia na aquearela dos meus dias. Olhar a janela tornara-se ver o meu avesso exposto no clima , alardeando aos viventes que fora ia assim como dentro, ventando e chovendo melancolia.
a natureza ciclica de nossas emoções em comparação com os ciclos de nossa natureza sao cliches que nao se cansam de usar os poetas desde que nos demos conta de como somos parecidos.
eu nao me importo.
tudo parece mesmo igual.
uma sombra que se abate sobre os ombros de quem vive,
sem açucar nem sal. 
quando me permito sair das paredes que ausencia de amor dessa casa pintou de cinza, caminho pelas ruas quase vazias. Preço a se pagar por dois minutos de alegria nessa vida é tão alto que chego a duvidar da bondade de Deus.
o frei beto lançou um pensamento certa feita que me acompanhou por toda vida por que dificlmente algo me fez tanto sentido. o mundo te joga pra fora mas o caminho é senpre pra dentro. os jovens  já descobriram isso por isso usam drogas. mas obviamente, descobriram de forma errada. a viagem  há nde ser sobria." e havia mesmo? sobria eu encarava a fluidez das horas e pensava no mau humor e irritação eu a abstenencia trazia aos meus semelhantes acostumados ao uso dessas substancias. pois que avida funcionava da mesma forma.  dois minutos nde alegria para quarenta mil horas de ressaca. olha o preço que se paga.
eu queria ter um botão onde conseguisse desligar minha cabeça. eu tinha abstnencia do verão. dos amigos que partiram. da bagunça do meu quarto. eu tinha ressaca de mim mesma.
tinha ainda muitos dias pela frente.
e não tinha mais a menor ideia do que fazer com eles.
eu tinha ainda muito eu mesma pela frente.

domingo, 21 de junho de 2015

Titanic



Eu não consigo viver num estado mediano como a maioria das pessoas faz. Estou sempre ou eufórica, imersa numa delicia absurda de viver ou   introvertida, nadando de braçada na minha própria melancolia, ambas sem motivo aparente, o que arruína o dia- dia e a saúde de qualquer vivente, o corpo nunca sabe como deve se comportar, se contrai e descontrai, se solta ou se prende, minhas costas doem precocemente. Sou um terror pra mim mesma.

Eu ando mergulhando tanto em mim que  temo que um dia, ao mergulhar, eu bata a cabeça no fundo e acabe afogada no meu próprio eu, sem nunca mais voltar a superfície da convivência sadia com outros seres humanos.

Uma coisa interessante dos anos se passarem é que a gente simplesmente consegue,  ou pensa que consegue, controlar as próprias emoções com mais senhorio. Mais nova, eu era também mais magra e tinha menos de mim pra controlar. Todavia não queria, ou não sabia e partia desembestada fazendo bobeira, mas isso era perdoável por que eu fui uma jovem adorável e às jovens adoráveis as besteiras são perdoadas solenemente pelos mais velhos, com um sorriso condescendente “Tão novinha...”. Acontece que até o mais condescendente dos sorrisos se cansa de lhe tolerar quando os anos chegam e você ganha todos os quilos que o mundo perde em dietas da sopa e afins.

O que as pessoas não sabem é que eu engordei para caber mais em mim por que fui crescendo o dentro e esquecendo o fora. Minhas costas cresceram, minha barriga cresceu, meus peitos enormes, minhas coxas roliças, eu vou envelhecendo e comendo o mundo, e por isso não perco peso, mas vou recriando o universo aqui dentro.  E o universo está sempre em expansão.  

Minha mãe fica maluca com isso, por que pessoas gordas são infelizes, de acordo com todo mundo, não só com ela.  Eu deveria perder peso. Mas eu deveria tanta coisa. Eu deveria fazer mestrado, eu deveria fazer teatro, eu deveria ler mais, eu deveria terminar de escrever meus livros, aliás eu deveria parar com tanta coisa que ela não sabe que é melhor o foco ser a gordura.

O mundo é um moinho vai moer seus sonhos mesquinhos. Obrigada por avisar, poeta. Eu  fico por horas rolando na cama de puro recalque. Das coisas que não fiz, dos homens que não tive, dos amigos que me esqueceram. Como se todos os anos fossem um compilado besta de fracassos. Eu sou a única pessoa do mundo que olha pra trás e não vê o passado com nostalgia, por que só lembro das merdas que me disseram, das merdas que me fizeram e das vergonhas que eu mesma me fiz passar. Ou seja, no balaio de gente que eu odeio eu ocupo o primeiro lugar.  

Eu queria muito nadar de volta até a superfície de mim mesma, se é que um dia já fiz isso, e ficar ali boiando, dando bom dia pro porteiro, comprando pão na padaria , indo pagar as contas na lotérica, vendo porta dos fundos e rindo como qualquer pessoa normal faz. Ficar ali na superfície de boa, o nariz para fora de qualquer inquietação interna, respirando cotidiano e falando mal da presidente. Eu gostaria de aceitar tranquila o fato de que fazer uma cirurgia no nariz me tornaria uma moça menos mal diagramada e não ver todo racismo implícito na minha própria opinião. Eu queria não me importar com as igrejas evangélicas tomando o mundo de assalto, levando consigo todo bom senso das pessoas junto com o dizimo. Eu queria nunca ter sabido nada dessas coisas. Mas desde criança eu vou sabendo sem querer, ninguém nunca me perguntou se eu queria ser ignorante de fato, simplesmente foram me dando coisas pra ler e dizendo que assim eu chegaria a algum lugar . O mais longe que eu cheguei foi dentro de mim mesma, e como já disse, isso me deixa atormentada. Eu, se pudesse, escolheria não saber dessas coisas, mas agora é tarde. Nadar na superfície me deixa ainda mais inquieta  e eu sempre acabo batendo num iceberg desavisado e afundando catastroficamente, com musica da Celine Dion tocando ao fundo.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

O Oceano Onde Dorme a Canção



 Vou escrever uma canção para nunca mais falar de você. Nem cantar essa canção, nem murmurar essa canção, nem lembrar dessa canção. Eu vou jogar essa canção da janela e ela vai cair rápido, vai cortar  cèu, despencar no horizonte montanhoso e afundar no oceano que banha a distância dos nossos universos. Um oceano tem muita água. E eu preciso parar de beber.



 Eu sai para comprar cigarros e não deveria ter voltado. Esse lugar é pequeno mas é tão fácil de se perder que todos diriam a principio "Que rapaz  mais burro!” mas no fundo saberiam que voltar para casa às vezes pode demorar mais do que apenas o caminho que se toma todos os dias.
Eu não deveria ter voltado para casa, subido as escadas e ver que ela ainda dormia exausta no sofá. Eu deveria ter ido fumar na varanda ou me escondido no quarto. Eu deveria ter me jogado no rio. Eu deveria ter ido a outra festa. De uma hora pra outra todos os pensamentos se tornaram um labirinto estranho onde eu não sabia quem eu era e as minhas certezas não enchiam nem uma pequena gaveta do que um dia fora um arquivo muito bem organizado de mim mesmo. Eu não me reconhecia e tinha ainda as minhas pernas meio moles, por isso, talvez, tenha voltado pra casa.




Eu vesti o meu casaco xadrês e sai no vento, eu não me lembro de antes ter visto meu corpo pedir descanso daquela forma. "Eu sou um furacão que os outros adoram." Um amigo me disse uma vez. Eu sou um furacão, e quem gosta disso? De que me serviu até hoje ser um furacão ? Tenho mais ferrões do que abelhas ao meu redor.  Eu queria muito acender um cigarro, impossível. Naquela confusão de vento, folhas secas e cabelo eu tentei achar o caminho para casa e fiquei vagando pela cidade. Eu precisava tomar um bom banho e tirar de mim todos os cheiros dos vícios que não salvam a alma de ninguém. Andei mais um pouco até acabar adormecendo à beira do rio. Ninguém viu. Eu dormi  como se estivesse lendo um livro.




As coisas são muito piores quando se é jovem o suficiente para não saber lidar com elas. Ou quando se tem a cabeça lotada de hipocrisias confortáveis. Naquela noite jogaram um espelho diante de mim. E eu vi que não era ninguém. Quando pegar o avião de volta para o colo feliz da minha casa, eu não vou ser mais aquele que me chamam pelo nome. O bom filho, o bom marido, o bom o que? Eu sou bom em quem e quem sou eu? Eu queria que minha cabeça me desse uma resposta e ela fosse facilmente entendida. Eu dormi a tarde toda exausto, na minha própria cama, depois que ela se foi. Eu dormi a tarde toda no meu cobertor quentinho, meu travesseiro cujo cheiro era familiar, mas que merda! Merda de festa, merda de vida. Eu acordo assustado às vezes por que sinto como se houvesse uma boca muito próxima dos meus ouvidos  chamando meu nome, mas não é nenhuma voz conhecida, eu acordo com a visão de duas pernas abertas convidativas e eu não quero, aquilo me deixa enjoado e eu não sei por que, não deveria ser assim, eu gosto de pernas e mulheres convidativas e deveria dar valor a meia dúzia de pernas que se abrem quando eu passo pelas festas, mas ao invés disso eu sento e tento não estar cabisbaixo. As coisas não deveriam ter esse tamanho, deveriam ser menores. Eu deveria ser maior que tudo isso. E não consigo saber nem o tamanho de mim mesmo.




Eu sou um furacão, e via de regra furacões fazem estragos na vida das pessoas. Levam as casas, levam as vidas, as certezas. Um furacão nunca pode ser divertido, por que tira você do seu eixo, está sempre repleto de coisas que não lhe pertencem, passou por dezenas de vidas e carregou consigo coisas que não deveria. Eu cansei de ser um furacão, de tirar as pessoas do chão, de mudar as certezas de lugar por que mesmo que com isso muitas vezes se varra toda hipocrisia para fora, mesmo assim, as pessoas te odeiam e não admitem que o fazem. Tem-se por hábito vigiar furacões e não segui-los. As pessoas me observam por que é divertido. Mas ninguém quer tirar os pés do chão comigo, um furacão nunca é bem vindo.



Eu vou dormir e muitos dias vão se passar e tudo que ela me disse vai fazer cada vez mais sentido e isso é tão terrível quanto se me amputassem um membro. De uma hora para outra talvez eu  me torne o ser humano que eu espero que eu seja.  Ou continue adormecido no colo macio da hipocrisia aos vinte um, dois, três, trinta e cinco ou cinquenta. Eu não quero ver a nudez a qual ela me expôs. Eu queria que as coisas fossem mais simples. E como não posso eu finjo que elas são. 


Eu vou escrever uma canção dessas que ninguém pode tocar e nunca mais ninguém vai falar no seu nome. Eu vou escrever uma canção completa que nenhum instrumento vai tocar, nenhum soprano vai cantar. E ela vai jazer lá embaixo do oceano, coberta de areia e azul. Como quando está amanhecendo e a luz é turva. E nós vamos fingir que essa hora, essa noite, essa vida, jamais aconteceram. As coisas podem ser simples, mas eu não sei (quero) fazer. Dorme em paz.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Uma Crônica Muito Autobiografica


á Deusdite, que me ensinou que dentro é oceano e mergulhar é a solução....




Eu entendo todos os fantasmas perfeitamente. Em vida já não é fácil abandonar o que quer que seja. E quando já não há vida, quando ninguem te ouve, a angustia cresce e te cerca por todos os lados. Não tendo você mais corpo, o que paira é sentimento, que sem boca nem arte, não se expressa. Só vaga.  Às vezes chora na madrugada. Às vezes lança-se contra as paredes da casa. Arrasta grilhões imaginários enchendo de medo os corredores. Mal sabemos.  Eu entendo os fantasmas. Por que não abandonamos nem o que é ruim se o tomamos como nosso. E o ruim fica sendo bom por que é nosso. Não é bom mas possuimos.
Eu fechei os olhos no quarto ainda escuro . A noite dura pouco e o corpo tampouco descansa  nessa época do ano. Puxei o cobertor. Quando deixei uma vida que um dia tivera deixei assuntos não resolvidos em meu encalço e talvez seja essa a razão da persistencia dos meus sonhos. Uma casa, a minha casa, repleta deles perambulando pelos cômodos. Tudo gelado e eu rezando pelos cantos tentando expulsá-los. Minha casa povoada de fantasmas que eu mal poderia caminhar dentro dela sem trombar um baú velho aberto jogado na sala, um livro comido de traça no banheiro, uma foto amarelada sobre a mesa. Eu fechava os olhos ia para minha casa: Lotação: repleta.Todos nós lá dentro. Eu viva. Os outros mal enterrados pelo tempo.
Fechei os olhos e comecei a contar as horas para os primeiros raios de sol começarem a me roubar o descanso pela janela do quarto, eu nunca entenderei como podem a natureza e as pessoas descansarem com noite tão curta aqui em cima. Apenas quatro horas para deitar, pensar sobre o universo, concluir que nada sei, brigar violentamente contra isso e me deixar corroer vagarosamente pela certeza da pequenez por alguns minutos até minhas palpebras pesadas me vencerem finalmente. 
Você sentou na minha frente, embaixo das árvores, na mesa de ferro. Escurecia e chovera há pouco. Tudo umido e azul, algumas luzes do natal passado ainda teimavam em ficar piscando e fazer desenhos estranhos e longinquos nas árvores. Você encostou sua testa na minha e eu pude ver seus olhos turvos frente aos meus, as mãos na mesa de ferro enegrecida pelo tempo. "Você vai me dizer exatamente tudo que voce tem pra dizer!" bradou. Eu não parei para pensar na estranheza do seu ato e acabei te vestindo de uma dignidade que nunca foi tua. Grata pela oportunidade me levantei e gritei todas as palavras ruins que já foram ditas por todas bocas amarguradas que já passaram por esse planeta. As que existem e as que ainda se inventarão. E depois, me sentei, vazia. Não se tratava disso, então? Todas as palavras ruins gritadas aos ventos não resolveram. Eu ainda estava cheia de fantasmas pela minha casa, caminhando de um lado pelo outro, me tirando a paz pelas madrugadas.
Voce não pareceu convencido. De braços dados caminhamos pelo jardim fresco da chuva de há pouco, as folhas escuras, as flores roxas, abri a boca e quis engolir a aura de novidade que tomava aquelas já antigas paragens. Caminhamos pelos arredores da casa antiga. Eu estranhei a passividade com a qual aquela conversa se dava. "Não tinha você um cão de guardas armado até os dentes a me morder os calcanhares caso eu me aproximasse?" Perguntei e você "Não há com o que se preocupar...".  E antes que eu dissesse qualquer coisa voce completou "No final eu só queria te dizer que eu me importo. Eu sei o que se passou com você.  E sei que está tudo bem agora, mas eu entendo. Estou passando pelo mesmo caminho que voce já fez." Voce me ofereceu um café, eu não tomei. Saímos da casa ainda caminhando calmamente, desviamos do penhasco de onde, do outro lado, os conhecidos mestres nos acenavam. Acenamos de volta.
Na curva do caminho, sentada numa flor de lotus, sorria uma moça bonita, me deu um aceno terno, nem de longe parecia a sombra a protagonizar meus pesadelos em tantas noites em que nem precisei dormir para que eles, os pesadelos, viessem me assombrar. "Como foi possivel para voce conseguir fazer isso? Trocar as peças, as pessoas, as vidas, por outras peças, pessoas e vidas assim, impunemente, sem que nenhuma ressalva caísse sobre seus ombros?" Você agora caminhava a minha frente, talvez incapaz de olhar o próprio erro de frente, acelerava o passo "Isso já não tem mais nenhum sentido, não importa mais. As coisas não foram assim e se um dia foram... Bem agora também tenho meus próprios fantasmas." E então eu parei a caminhada. Você foi para algum outro lugar, sumiu, e o jardim se tornou turvo e se tornou claro e ainda mais claro e a luz do sol inundou minhas pálpebras.
Abro os olhos e estou exausta de emoldurar as pessoas da minha biografia em heróis e vilões como num romance de enredo pobre que se compra em banca de jornal. Cansada de subestimar minha audiência com um retrato unilateral das minhas narrativas. É preciso exorcisar, sem gritos histericos de pastor, um por um dos meus demônios pessoais que só ganharam tal alcunha após meu próprio julgamento impetuoso. O presente que os anos trazem é tornar as pessoas mais inteligiveis diante dos olhos. Inclusive eu mesma. E deixar ir.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Menina

     O cheiro de mofo a trouxe de volta a consciência e os olhos foram então se acostumando com a penumbra abafada. Foi dando conta de si aos poucos, a pele melada de suor  e a tentativa de reconhecer aquele lugar. Forçou os olhos, tentando ver melhor. Aquelas paredes lhe soaram familiares a principio, mas depois dissipou a ideia, achou-a esdruxula. A boca seca pedia água .
     O papel de parede amarelado descascava pelas paredes mofadas, levantou-se com cuidado, vestiu-se. Movia-se devagar apesar da pressa. Temia acordá-lo. De barriga pra cima ele roncava alto e ela mal lhe lembrava o nome, algo com ph, como ele mesmo frisara a noite passada.
"Ele poderia ter me matado." pensou, como se todos os outros não pudessem ter feito o mesmo antes, olhou as mãos brancas em repouso sobre a barriga  avantajada. 
  Arrastou-se como um felino até a porta, as sandálias na mão. A maçaneta enrijecida ao toque, trancada. Um arrepio cortou-lhe o corpo todo de assalto, ele poderia te-la matado mas não o fizera. Não ainda. Riu de si mesma, não era primeira vez e decerto não seria a ultima que teria aquele tipo de rotina. Provavelmente o aspecto decrepito do quarto lhe causasse o horror. Numa casa antiga daquelas era de se esperar que as coisas emperrassem, mas oras bolas.
 O homem cujo nome tinha ph virou-se na cama. Ela hesitou. Depois caminhou até o banheiro de pequenos azulejos azuis claros. No espelho fungos comiam o reflexo do sol forte lá de fora. Abriu o armarinho. Uma escova de dentes velha, pasta de dentes endurecida, grampos de cabelo enferrujados. Saiu do banheiro, tentou a porta novamente. Trancada. 
O homem cujo nome tinha ph moveu-se novamente na cama, dormia pesado, o esforço na noite anterior somado ao álcool garantiam que sua estadia fosse demorada nos braços de morpheu.
Passou os olhos em revista deveria ter alguma chave por ali, talvez ele fosse só mais um velho neurótico a trancar as portas todas com medo de ladrões. Ao lado da cama um criado mudo de madeira escura, abriu a gaveta com cuidado, ali nada além de um laço de fita amarelado que talvez  fora cor de rosa no passado, alguma mulher passara por aquele canto e esquecera para sempre seu adorno, mas que coisa, há muito tempo mulheres não usavam mais laços de fita, nem mesmo as meninas, o homem de nome com ph tinha muitos anos de idade, isso sabia, mas ele também o tinha, como queria sair dali...
Esperar o homem acordar não estava nos seus planos, olhou  novamente ao redor, pensativa, quando deu-se conta do quadro na cabeceira da cama. Grande e desbotado, a moldura fosca como uma lápide, por trás do mofo e da traça, uma menina sentada num balanço numa paisagem que facilmente se encontra adornando um calendário. Aproximou-se. E então viu que a menina no balanço parecia chorar copiosamente. Que coisa de mal gosto quadro de criança chorando! Resolveu checar novamente o criado mudo. Não se deu conta da primeira vez mas uma navalha jazia ao lado do laço de fitas, num reflexo guardou-a consigo,  nunca se sabe, a porta continuava trancada. Jurou para si mesma que nunca mais iria a casa de ninguém, tantos motéis pela cidade e ela fora se enfiar justo ali? Com cuidado olhou os bolsos das calças que o homem usara na noite anterior que ainda jaziam num canto do chão. Nada. 
    Na parede o quadro, aquela criança chorando no balanço lhe embrulhava o estomago, não combinava aquela menina triste com aquele jardim bonito, a menina devia ter onze anos no máximo, os olhos estavam agora tão nítidos, eram tão vividos, mas choravam. Tentou limpar-lhe as lágrimas, quando viu chorava também, recuou, precisava ir embora, forçou a porta, dessa vez sem cerimonias "Tentando me abandonar, pantera?" ela se virou assustada  "Não, é que precisava ir embora, a porta emperrada..." as lágrimas da menina e o susto. "Que estranho..." ele levantou-se, a carne rosada, estendeu-lhe a mão "Venha belezinha!" e ela deu a mão para ele e voltou para a cama, mas a menina no quadro, oh céus, quantas lágrimas , o homem de nome com ph beijou-a com gana, mas ela não queria mais, a menina chorava e suas lágrima pingavam da moldura na parede e molhavam a cama, tornando os lençóis pesados e os beijos carregados, as lágrimas caiam no chão molhando o assoalho de madeira, as lágrimas enchiam o quarto, infantes e desperdiçadas, na casa vazia o que se ouvia era só o barulho das gotas d'água caindo e enchendo o mundo de pranto, e tudo tornou-se pesado e rançoso, e então lembrou-se da navalha (as gotas insistentes caiam encobrindo o murmurio da menina no balanço) e então lembrou-se da navalha. Empurrou o homem "O que há com voce ?" ele perguntou,a voz soou longe porque mais alto iam os murmurios da menina que chorava ali tão perto, ela tirou a navalha , abriu e agora o pranto que inundava a casa tornava-se vermeho de sangue e gordura. o homem cujo nome tinha ph caiu sem vida ao seu lado. e tudo cessou num silencio denso.
O barulho da agua cessara. olhou o teto, ainda deitada , as taboas corroidas de cupins. Levantou-se, lavou as mãos na pia pequena do banheiro de azuejos azuis. 
aproximou-se do quadro na parede, a menina era agora só mais uma menininha sorridente se divertindo em seu balanço. beijou o quadro, pegou a bolsa e saiu. O sol forte la fora doeram os olhos, passou pelo jardim ressequido da casa, uma rua de subúrbio. Caminhou até em casa. Mais um domingo somente. 
  Foi coisa de dois ou três dias depois que os jornais da região noticiaram a morte do homem com ph, que se dera em circunstancias misteriosas. nenhum suspeito. Nada além da estranha coincidência, o homem morto da mesma forma que matara a enteada quarenta anos antes. 










 

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Amor de Pai II

"As my life flashes before my eyes I'm wondering will I ever see another sunrise? So many won't get the chance to say goodbye, but it is too late to think of the value of my life..."


O Isaac nunca ficou muito tempo no seminário, por que acabaram concluindo por lá que ele não tinha vocação nenhuma, caso perdido apenas tentar convencer o pai dele disso. Conversamos duas vezes. Os olhos ferozes e fervorosos, "Não, não se contraria Deus!", mas deus para ele era a própria opinião.
  Ao Isaac ele nunca disse que a mãe biológica aparecera anos depois atrás de notícias, mas o próprio Isaac descobriu por si só porque ouviu uma conversa dos dois pelo telefone. Preferiu calar-se fingir que não sabia de nada, desde pequeno sabia que com seu pai só se concordava, a mãe biológica ate então não fizera falta, só começou a sentir o peso da obrigação do seminário depois dos doze anos.
Quando voltava das compulsórias incursões no seminário voltava também ao colégio e a vida normal, as meninas olhavam os olhos azuis marinho não sem uma certa desconfiança, era bonito, dançava até muito bem também, mas elas preferiam os malvados. Enquanto isso, eu sempre buscando entre a barulhenta massa uniformizada um olhar do rapaz que nas tardes quentes aparecia no meu apartamento tomando uma coca e falando freneticamente das coisas do seu dia, eu ouvia, tomava nota, tomava coca, fazia amor.
Foi quando começou a chuva. Aquele céu plúmbeo e muita água, descendo pelas calhas, eu fui levá-lo ate o portão, acabara de escurecer, era tão cedo, meu prédio era pequeno e não tinha porteiro, eu fui levá-lo ate o portão, ele andava mais cabisbaixo por que definitivamente iria embora, decidira uma dia antes, ia embora sim para qualquer lugar que fosse, aquela idéia que toma de assalto sempre as crianças, de fugir de casa e ser dono das decisões, quanta inocência, não podia mais conviver com o pai, que o queria para si tão egoísta, só faltava fazê-lo ajoelhar no milho, fora de si...
Eu me despedi dele discretamente, vá com Deus Isaac, tire da cabeça essa ideia de fuga, é bobagem, você sabe, fique bem, senão por você, por mim, eu me preocupo, na verdade era puro complexo de Édipo, eu só percebo isso agora, mas não me importa mais, por que só importa é que era, foi, bonito, ou não, foi.
Ele ia embora, atravessar a rua na bicicleta e veio o carro , ele era ainda um homem jovem , as mãos grandes segurando o volante, então era isso, era fúria, ele decerto o seguira, viu o beijo, aquilo não foi nada, ele já não pode afirmar nada, por que se perdeu no tempo a fúria da voz que gritava que o filho estava perdido antes de acelerar o carro, Isaac hipnotizado apenas deixou-se ficar onde estava, o motor roncou alto assim como o pneu no atrito com asfalto, o carro avançou sobre ele, arremessando seu corpo para o meio da rua e batendo num poste logo a frente e desde então os segundo viraram seculos. 
      O carro virou sucata e me vi estranhamente de fora, como se fosse outra pessoa lendo o que se passava, eu estrangeira de mim mesma, olhei o cadáver dentro do carro nunca me importei tão pouco com uma pessoa como naquele momento.
A chuva continuava agora bem fraca, um sereno, parada onde estava vi Isaac procurar conforto com os olhos pueris desesperados por respostas. E o silencio. 
Fui sentando-me no portão, a cabeça entre os joelhos, dando tudo na vida para jamais ter visto nada, para ter nascido cega. Mas mesmo que a cegueira agora me atingisse de nada adiantaria por que já havia visto tudo e a única memória da luz que me restaria seria essa. Com a cabeça entre os joelhos eu fiquei até me tirarem dali, apática e presa num eterno replay. Com a cabeça entre os joelhos eu não quis ter mais nada. Não quero mais lembrar. Tenho que voltar para minha casa, tenho que tentar fechar os olhos e dormir, por que agora a chuva parou de vez, a rua molhada reflete os postes, ainda está ali a lata de coca cola, no criado mudo, é melhor que limpem logo a rua, limpem o mundo, que eu preciso dormir. E que amanhã se enterrem três mortos.